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Porque é que estas Autárquicas são vitais para as populações?

Sexta-feira, 18.08.17

 

 

  

O pior que pode acontecer às populações já aconteceu: sem protecção nem segurança, abandonadas e esquecidas, assim como o território que ocupam.

E não é apenas a segurança, um direito básico que deveria ser garantido pelo Estado, é o próprio governo não lhes dizer a verdade. Isto ficou claro, claríssimo, na 4ª feira à noite. Rewind: programa "Negócios da Semana" da Sic Notícias. Tema: A Economia do Fogo. Interrupçao para ouvir a ministra da administração interna que se tinha dirigido àquela hora à Protecção Civil, insistindo atabalhoadamente na versão "negligência" para encobrir a realidade "crime organizado".

A realidade está à vista de todos e o governo (versão oficial) insiste em escondê-la de todos nós, os cidadãos.

 

Voltemos ao programa e ao tema "A Economia do Fogo". Existe toda uma economia que se alimenta da desgraça das populações: negócios à volta do preço da madeira ardida (paletes, contraplacados, etc.); da aquisição de equipamentos de combate aos incêndios e de pagamento de serviços. Para já, foi o que registei. 

Formas de prevenção: neutralizar estes interesses económicos, fixando o preço da madeira ardida; nacionalizando os meios de combate aos incêndios com aquisição pelo Estado dos equipamentos; envolvendo forças militares especiais; preparando equipas de vigilância.

 

Onde é que entram as câmaras municipais, o poder local, na prevenção de incêndios e na protecção das populações?

Um presidente de câmara que conheça bem a sua população e território, que esteja próximo e receptivo às sugestões dos munícipes e de especialistas, e que coordene com outras câmaras, pode ter um papel fundamental. 

Pode optimizar os recursos da região, e a floresta é um recurso valiosíssimo, não apenas pela madeira, mas muito para além dessa indústria. Uma floresta bem gerida pode ser um recurso ambiental e turístico, uma floresta que se organiza de forma sustentável, numa ocupação do território bem planeada, com espécies seleccionadas e mais adequadas a cada configuração, e espaços amplos de interrupção natural com espécies menos inflamáveis ou outras soluções criativas.

Para decidir sobre um território a este nível, em que se afectam muitos pequenos proprietários, terá de se ouvir as pessoas, saber negociar, e depois preparar os meios financeiros (programas europeus, nacionais, locais, etc.) para negociar cada contrato. Uma sugestão possível é o aluguer do espaço onde se intervém.

 

Já se começa a perceber a importância vital das câmaras municipais, sobretudo para os concelhos do interior esquecido e abandonado. 

Um presidente de câmara com visão das potencialidades da região pode dinamizar a economia, mobilizar meios, atrair novos negócios, e promover uma ocupação do território.

 

Já referi o perfil ideal de um presidente de câmara. Cada um deve escolher cuidadosamente e pensando nestes factores que são vitais para a sua região: segurança, justiça, economia.

As dimensões valorizadas "jovem" e "independente" surgem relacionadas com "preparação técnica" e "cultura de colaboração". Claro está que podemos encontrar preparação técnica e cultura da colaboração em candidatos partidários.

A dimensão "ser residente na região", conhecer bem o território e a sua população, não é negociável.

Também não negociável a preferência de "candidatos ao primeiro e/ou segundo mandato, e excepcionalmente ao terceiro". 

Sugere-se evitar "candidatos que revelem um discurso agressivo e competitivo", uma cultura partidária corporativa.

Assim como "candidatos que exerçam a função de deputado".

E, como é desnecessário referir, "candidatos com irregularidades financeiras no percurso".

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:01

A democracia e a cultura da negociação

Quinta-feira, 15.10.15

A democracia implica sempre a cultura da negociação. Mesmo no caso de um partido político ou de uma coligação obter uma maioria no parlamento. Por cá só vemos essa cultura em maiorias relativas, isto é, quando a negociação é vital para o governo sobreviver.

 

O que é que aconteceu recentemente? A dupla PSD/CDS, com uma maioria relativa, proclama que ganhou as eleições, que espera ser governo, que nunca se viu um líder de um partido menos votado andar a negociar para formar governo, que esse partido não apresentou propostas para negociar, etc.

 

Rewind:  o líder do PSD, que pensa que já é PM, foi responsabilizado pelo Presidente de iniciar contactos de forma a formar um governo com uma maioria estável no parlamento. Em vez de tomar a iniciativa de iniciar as negociações com o PS, assinou um "acordo de governo" com o seu parceiro de coligação, o CDS. 

Entretanto, o líder do PS, sabendo que o resultado das eleições o tinha colocado como fiel da balança, pôs-se a trabalhar: iniciou os contactos com os partidos à sua esquerda (que já o tinham desafiado durante a campanha eleitoral e logo após o resultado das eleições), e à sua direita.

Apesar dos apelos vários (incluindo a Igreja) e de pressões diárias (incluindo as internas ao PS), as negociações continuam. Pela primeira vez vemos os políticos envolvidos e interessados num acordo, a efectuar um trabalho sobre medidas concretas, em vez do palavreado e da politiquice. E isso é uma lufada de ar fresco.

 

Quem é que anda nervoso?

Quem pensava que estas eleições eram uma corrida presidencial. E quem pensava que o PS estava mais próximo do PSD (o sonho do bloco central) do que da esquerda.

A nova distribuição dos deputados na AR veio alterar a vida mansa da dupla PSD/CDS que governou na opacidade, sem dar a informação que lhe era pedida (e mantém o tique). 

Quanto ao bloco central, pois bem, é melhor fazer rewind de novo:

 

No governo de maioria absoluta do PS (2005-2009) notou-se, de facto, uma inclinação para a direita (outros bons alunos de Bruxelas). A sua única atenuante foi a aposta na ciência e na tecnol0gia, era, digamos, prá frentex. 

Mas a dupla PSD/CDS não se inclinou apenas para a direita, tornou-se a cara chapada da direita neoliberal (tipo Margaret Thatcher). Não se limitou a negligenciar os pobres, os remediados, os reformados, os desempregados, isto é, os mais frágeis e os que vivem so seu trabalho. Foi mais longe: massacrou-os e humilhou-os, disse-lhes para não serem piegas e contou-lhes uma parábola medicinal. E a parábola rezava assim: o país está doente, a austeridade é o remédio. E continua: os senhores que nos vêm visitar são os nossos benfeitores (solidariedade europeia), vamos ter de seguir as suas exigências para acalmar os mercados, que estão muito nervosos, ganhar a sua confiança, para podermos voltar a pedir-lhes dinheiro emprestado. E entretanto os pobres, os remediados, os reformados, os desempregados, os mais frágeis e os que vivem do seu trabalho, assistiram, incrédulos, à grande evasão fiscal, à protecção dos grandes grupos económicos, à falência de um grande banco, às vendas sucessivas dos nossos recursos, e, finalmente, repararam que o país estava completamente diferente, socialmente desigual, com muita pobreza, e com menos jovens, pois tiveram de emigrar.

 

A dupla PSD/CDS não sabe negociar, não está no seu ADN, na sua cultura de base. A sua é a cultura do poder: ganha-perde, uns ganham e os outros perdem, uns são ganhadores outros perdedores. A sua postura é a da arrogância, não é a do respeito. E a sua posição não e a da aproximação, é a de encostar às cordas.

 

A dupla PSD/CDS tem ainda muito que aprender sobre a cultura da negociação. A negociação implica:

- maturidade do(s) negociador(es);

- respeito mútuo entre negociadores;

- uma posição de ganha-ganha e não de ganha-perde;

- um caminho com várias etapas de aproximação;

- calma, paciência, discrição, enquanto as negociações se desenrolam;

- ter sempre presente que o objectivo de um acordo é o bem comum da comunidade.

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:24

Mecanismos da Democracia ao dispor dos cidadãos entregues à prepotência e à arbitrariedade do governo

Domingo, 16.06.13

 

São muito poucos os mecanismos democráticos ao dispor dos cidadãos entregues à prepotência e arbitrariedade do governo:

 

- as manifestações organizadas (as de um grupo específico e/ou as mobilizadas pelos sindicatos) e as manifestações inorgânicas (os grupos mais diversos, em idade, profissão, situação, famílias, etc., isto é, quando a sociedade civil sai à rua). As primeiras são as que mais irritam os políticos, as segundas são as que mais preocupam os políticos (a paz e a coesão social, o impacto nas eleições, etc.). O exemplo de uma manifestação com impacto: a de 15 de Setembro do ano passado;

 

- as Petições cujo resultado nacional ainda não consegui avaliar. Penso que depende do número de assinaturas e/ou da influênca das assinaturas e eu acrescentaria a internacionalização da dita (parece que o governo é muito sensível à imagem que o estrangeiro faz de nós). As Petições não têm sido muito utilizadas no país, embora se verifique uma tendência crescente no seu recurso a nível da internet com algum impacto global;

 

- as reuniões de concertação social: aqui estruturadas pelos representantes dos diversos grupos sectoriais e governo. Mas o que vemos? O governo não respeita os acordos, muda as regras do jogo, desvirtua os compromissos, inventa medidas que diz temporárias e que depois quer tornar permanentes, recorre a manobras para cortar de outra forma o que não pode cortar de uma determinada forma, e tudo de surpresa, em conferências de imprensa. A rapidez com que muda de discurso e com que arranja a argumentação para mais um corte aqui e ali apanha todos de surpresa e já ninguém se entende, indo os representantes dos diversos grupos desabafar para a televisão; 

 

- as greves sectoriais e as greves gerais, que são estruturadas pelos sindicatos de grupos específicos (mesmo que a decisão possa surgir independemente da organização sindical). Já aqui defendi que a greve é um instrumento da cultura corporativa: só os grupos de activos podem utilizar esse mecanismo. Geralmente o impacto acaba por incomodar os conterrâneos mais vulneráveis, quantos deles nem sequer têm acesso a esse recurso (inactivos e reformados, por exemplo). Esta minha reserva aplica-se sobretudo a greves sectoriais e não tanto a greves gerais, que já revelam mais do que simples defesa de interesses de um grupo específico. Mas referir que essa minha análise se situou numa época em que a democracia, embora débil, ainda funcionava ou, pelo menos, parecia funcionar. Também nessa altura o trabalho e a sua dignidade não estava ameaçado, como hoje, e todos os dias. 

Hoje o trabalho está na mira da destruição sistemática e maciça do governo-troika: este ano a média diária foi de 1.100 postos de trabalho. A situação é desesperada da parte dos que se sentem na posição do próximo a ser movido para a estatística. Mas a principal razão desse desespero está na forma como essa ameaça foi sendo conduzida: de forma prepotente e arbitrária e nos sectores, isso sim, que mais prejudicam os cidadãos mais vulneráveis. Prepotente: reparem no sistema de despedimento, é colocar uma pessoa numa lista a que chamam de requalificação. Arbitrária: qual reforma da administração pública qual quê. O FMI dá um nº e um prazo, o governo transmite a ordem aos serviços: até 31 de Julho apresentem a lista. Esta forma de cortar sem critério compromete a qualidade e eficiência da prestação de serviços públicos que era precisamente o objectivo principal.

Neste contexto completamente anormal, porque não encaixa numa lógica, numa racionalidade, numa coordenação, na tal reforma administrativa, não há espaço para o normal funcionamento dos mecanismos anteriores. Ao não respeitar acordos, compromissos (a não ser com os credores e com os interesses protegidos, as excepções), ao não respeitar as regras do jogo, as leis do país (exemplos: Constituição, colégio arbitral, isto é, as decisões dos tribunais), verbalizando mesmo que vai mudar a lei, acaba por criar a maior instabilidade e falta de confiança nos políticos, no governo, no futuro do país. A insegurança, o medo, o desânimo, afecta já não apenas os visados mas os restantes cidadãos.

Na actual situação a greve surge como o último recurso de quem foi colocado numa rampa de lançamento para a porta de saída de uma vida activa e na maior precariedade. E isto enquadra-se na destruição sistemática e maciça dos serviços públicos. É disso que se trata. Mas também adquire uma dimensão nacional, de país pressionado e ameaçado, a perder dia a dia a sua autonomia relativa, os seus recursos humanos, os seus recursos naturais e estratégicos, e a economia que é a sua vitalidade, dignidade e a base da democracia.

 

 

Concluindo: o que fazer perante um governo que não age apenas como um intermediário da troika no país, acata todas as avaliações, exacerba algumas medidas, apresenta-as a frio e a seco quase em cima do prazo, de forma avulsa e mal fundamentada, isto é, revelando prepotência e arbitrariedade?

Quando as regras do jogo são completamente adulteradas e desrespeitadas, incluindo a lei básica da organização política e social do país, a Constituição, e as leis que a fazem respeitar nos diversos patamares, o que podem fazer os cidadãos para defender a sua pele e a dos que se seguem nessa rota do desastre económico que nos irá colocar na mesma situação da Grécia?

A sociedade civil está a querer transmitir-lhes que há um limite, mas o governo ainda não percebeu nem quer perceber. Esta incapacidade para perceber os sinais de alarme é que vai prejudicar o país.

 

...

 

Importante acrescentar: e não é que me esqueci do mecanismo democrático básico que garante a representatividade e legitimidade do governo e da distribuição de deputados na Assembleia da República (eleições legislativas), no Parlamento Europeu (europeias) e no poder local (autárquicas), assim como o que garante o equilíbrio institucional e o respeito pela Constituição (presidenciais)? Isso mesmo:

 

- o voto: as eleições legislativas permitem a constituição de um governo e a distribuição dos deputados na Assembleia da República. Este governo e o Presidente estão tranquilos relativamente à representatividade e legitimidade do governo, baseando o seu conforto nos resultados de umas eleições legislativas de 2011, e na coesão social (esta razão foi dada recentemente pelo Presidente); as autárquicas permitem a gestão do poder local; as europeias, a nossa voz no Parlamento Europeu; finalmente, as Presidenciais, o tal equilíbrio de poderes institucionais e a garantia do respeito pela Constituição.

Este mecanismo do voto, sobretudo nas eleições legislativas e nas autárquicas, é aquele que deixa os políticos mais nervosos e percebe-se porquê. É o único em que os cidadãos decidem e intervêm, de facto, numa espécie de procuração dada aos partidos para gerirem os recursos colectivos por 4 anos, tanto a nível de governo e Assembleia da República, como do poder local. Por isso, este poderia ser um mecanismo com alguma eficácia se o seu intervalo não fosse tão longo. Eu explico: 2 anos deste governo já nos colocaram na rota da Grécia: recessão, emigração em massa mesmo de qualificados, desemprego, redução das condições de acesso e da qualidade de prestação de serviços públicos, pobreza, falta de confiança generalizada, ausência de perspectivas de futuro, etc. Portanto, em 2 anos este governo já provocou mais danos no país do que seria expectável mesmo pelo mais pessimista de nós. O limite já foi atingido, só eles não perceberam, Presidente incluído. Quanto às eleições autárquicas, e ainda a 3 meses da data de conveniência para o governo, 29 de Setembro, já se notam movimentações que sugerem uma campanha eleitoral antecipada. O governo, sem um debate público sério e alargado à sociedade civil, resolveu manter o nº de câmaras municipais e fechar diversas juntas de freguesia, optando aqui claramente por manter o seu poder local dos interesses instalados em detrimento da proximidade e do papel estruturante das juntas de freguesia. Pois bem, quanto a mim não participarei nessa estrutura e organização do poder local, que considero abusiva e desequilibrada. Não me deslocarei sequer à mesa de voto.   

Quanto às europeias: embora tenham um peso mais simbólico, ainda assim podem ser estratégicas, dependendo da voz que queremos ter no Parlamento Europeu. Embora à distância de quase 1 ano, já fiz a minha escolha há muito e ainda não me arrependi.

Finalmente, as Presidenciais: fundamentais para o equilíbrio de poderes, no controle de desvios à Democracia e no respeito pela Constituição, condição de estabilidade também, de avisos à gestão, representação mais elevada dos valores colectivos e das prioridades de um país. O que vemos actualmente é que a estabilidade não está garantida, a confiança não está garantida, a tal coesão social de que fala o Presidente perdeu-se, assim como a paciência dos cidadãos perante uma gestão prepotente e arbitrária, desigual e desequilibrada, com cortes sempre nos mesmos e excepções protegidas e operações pouco claras como a privatização de recursos estratégicos com irregularidades várias. Quem representa afinal o governo? Não são os cidadãos em geral, pois já lhes destruiu o trabalho, a qualidade de vida, a estabilidade das famílias, a protecção em condições de vulnerabilidade, o acesso e a qualidade de serviços públicos, a confiança nos políticos em geral, o ânimo e a saúde mental, uma perspectiva de futuro. E nesse mundo paralelo das excepções (banca, grandes grupos económicos e financeiros, as transacções e acordos de gabinetes, autarquias, governos regionais, institutos, fundações, profissionais liberais e a fiscalidade criativa, mas há muitas mais), tudo a decorrer normalmente. Para eles não há cortes, nem limites, nem ameaças de exclusão. Quem representa afinal o governo?

 

 

Conclusão sobre mecanismos democráticos eficazes: espero ter referido todos os mecanismos de defesa dos cidadãos perante a prepotência e arbitrariedade do governo. Para já, o voto, que poderia ser o mais eficaz, vê o seu impacto diluído por 2 factores: a) o intervalo de 4 anos hoje é suficiente para destruir um país, a sua economia, o seu ânimo; b) pelo que temos observado da sua actuação, vemos com alguma dificuldade a capacidade de regeneração cultural dos partidos que trouxeram o país até aqui e que são os mesmos que se apresentam a votos.

A seguir, há outro impacto possível: a imagem do país lá fora é um nervo sensível para este governo. Está aí uma janela de oportunidade, e a ideia dos cidadãos de Istambul das manifestações silenciosas, como estátuas, em locais simbólicos do colectivo, é verdadeiramente criativa. Isto filmado e exportado teria um impacto significativo e interessante na imagem externa do país. Com a ajuda de cartazes em inglês seria perfeito.

As Petições só se forem internacionalizadas, mais ou menos como a Petição da televisão grega. Foi muito concorrida.

E quando as reuniões de concertação social falharem, digamos quando as negociações se revelarem infrutíferas, então, como último recurso, a greve, isto é, quando não se vislumbrar outro mecanismo e/ou quando a situação envolver mais do que o grupo, mas o colectivo e o bem comum.

 

 

 

Actualização deste post - 2017.06.11:

Para os Visitantes que escolheram este post como o mais visitado de sempre d' As Coisas Essenciais: a má notícia é que o seu conteúdo está claramente desactualizado e a boa notícia é que o seu conteúdo está felizmente desactualizado.

A sua actualização, e lembro que já passaram 4 anos, encontra-se n' A Vida na Terra, nos posts sobre política e nas palavras-chave: democraciaequilíbrioeconomia; desigualdades sociais.

Será interessante acompanhar a inovação cultural na política em França.

Como exemplo de um sistema político obsoleto, inoperante e ineficaz, o caso da América.

Como os Visitantes vêm essencialmente do Brasil e de Portugal, ficam os links :)   

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 21:45

A responsabilidade de um "novo rumo" tem de se iniciar com um compromisso com os cidadãos e sem equívocos políticos e culturais

Terça-feira, 21.05.13

 

A possibilidade de se abrir uma janela e de se refrescar o ar deste país entregue a grupos com agendas já identificadas e percebidas e que não servem os interesses do país e dos seus cidadãos, seria um bom sinal.

Mas seja qual for a janela e o novo ar, é bom esclarecer desde o princípio que a equipa que for escolhida (e só pode ser pelos cidadãos) estabeleça um compromisso claro com os cidadãos.

 

Já o disse aqui, nunca acreditei na revolução dos cravos, mas absorvi desde criança, e de forma profunda, uma cultura democrática. Esta é a base. Não é direita-esquerda ou falsas dicotomias. É o respeito por si próprio e pelos outros, a empatia como a base da interacção. Também tem a ver com a cultura cristã profundamente enraízada na minha família, e não apenas na palavra, mas na sua acção diária. Mas tem muito mais a ver com a minha percepção desde o início que o convívio social saudável só se pode conceber numa base de igualdade na dignidade e na liberdade, na tolerância, no respeito mútuo, no valor intrínseco e não negociável de cada vida humana. A prioridade é a vida, mas a vida com dignidade. É isso que nos distingue da barbárie.

 

Por todos os livros que li na primavera marcelista e pelo clima de rebeldia que se sentia no ar e que pensava nos poderia levar, de forma gradual, a uma democracia moderna e civilizada (nos valores que referi acima), nunca acreditei na revolução dos cravos. A minha primavera era outra, só acredito em soluções inteligentes, cultas, graduais.

Em adolescente li Marx e Engels (resumidos, porque não aprecio calhamaços), e outros livros biográficos sobre visionários, loucos e psicopatas como Estaline, Mao Tsetung, Hitler e Himmler, portanto para mim eram todos do mesmo saco cultural e mental: os ditadores, venham de onde vierem, têm a mesma base amoral da lógica do poder e da morte, da destruição bárbara, são incultos e doentes mentais.

Agora imaginem a minha surpresa quando no liceu, pelos meus 16, 17 anos, deparei com o ambiente deprimente em que se defendiam personagens como Lenine, Estaline ou Mao Tsetung... Por ali planei nesse ano de 75 sentindo-me uma inadaptada, escapando à gritaria das RGAs e um dia até a uma invasão da Copcon a rodear o liceu de G3 na mão. Felizmente 76 trouxe o sossego dos Cívicos e voltei às origens por um ano. Quando regressei para a faculdade já os ânimos estavam mais calmos e só me esperava o desgosto de Camarate, em 80, o fim da esperança democrática.

 

A partir daí, a possibilidade de uma cultura verdadeiramente democrática, de uma democracia de qualidade (acesso universal a uma educação de qualidade; acesso a uma informação de qualidade e comunicação fiável e transparente; partilha de responsabilidade e participação cívica; justiça de qualidade; eficiência dos serviços; liberdade de concorrência; todos os equilíbrios que mantêm a democracia), foram sendo substituídos por uma cultura de clubismo partidário, de má utilização dos recursos públicos, de novo-riquismo cultural, do sucesso fácil, dos grupos favorecidos, de interesses ocultos, e de tudo o que já se diagnosticou até à exaustão e que permanece intocável.

 

Nunca votei PS. Votei AD de Sá Carneiro e Freitas do Amaral. Depois de Camarate, o PSD morreu para mim. O CDS foi o recurso para não votar em branco. Só voltei a estar perto de votar PSD com a política de verdade de Manuela Ferreira Leite, e depois talvez votasse no libertar o futuro de Paulo Rangel mas ganhou o Passos, e apostei n' este é o momento do CDS/PP.

 

Mal sabia eu, como já aqui disse, que este é o momento seria pior do que um banho de água fria, foi cair num buraco de água gelada num glaciar: como podia ter sido tão ingénua? Só porque falavam na agricultura e na supervisão bancária?

Mas não se atiraram agressivamente aos mais fracos da população, aos RSI? Com um discurso moralista à Estado Novo? De uma mesquinhez tacanha esquecendo que os feirantes e os pequenos negociantes de rua praticam uma economia paralela de subsistência perseguida pela ASAE dos moderanaços socialistas da altura, que os arrastaram para a subsidiodependência? A economia paralela de subsistência não é muito mais digna do que viver de subsídios estatais?

A verdadeira fuga ao fisco, a dos grandes grupos profissionais e empresariais está aí? Não está! Mas dessa não nos falaram.

Os sinais de um elitismo cultural, de desejo de pertença a uma classe de privilegiados, de um moralismo saudosista e tacanho, já estavam todos lá e eu não os consegui identificar.

 

Foi apenas quando assisti a esta cooperação de dois anos em que mantiveram um silêncio cúmplice e oportuno com um núcleo de gestão política (PM-ministro das finanças) que iniciou uma guerra de destruição maciça à economia, ao trabalho e à dignidade de vida dos cidadãos, que finalmente percebi e identifiquei a sua verdadeira cultura de base. Só alguém com uma cultura de base muito pouco democrática, para não dizer mesmo anti-democrática, poderia ter pactuado com este plano de desvalorização do trabalho e perseguição aos mais vulneráveis, mantendo intocáveis os grandes interesses e as excepções aos cortes. Fiquei sem partido em que votar, portanto. 

 

Qualquer cumplicidade estratégica com o núcleo PM-ministro das finanças será recordada na história do país.

Considerar-se agora que o CDS, depois de dois anos de cumplicidade com esta tragédia económica e social, pode agora surgir como um possível partido de coligação com o PS, por exemplo, é um atentado à nossa consciência cívica.

Vão primeiro aprender o que é a democracia de qualidade, e já agora como TPC:

a) tentar viver com o RSI ou o SMN;

b) sobreviver 6 meses na China rural, na Índia urbana, no Bangladesh fabril, para ver que modelo de economia competitiva nos estavam a preparar;

c) passar uns dias sem pequeno-almoço e ir para a escola ou ir à farmácia e ter de escolher entre que medicamentos levar para casa.

 

Quanto ao actual "novo rumo" do PS, terá de fazer um compromisso com os cidadãos e não configurar apenas uma forma airosa do sistema (o regime, as actuais elites no poder) se reorganizar novamente para tudo ficar na mesma paz podre

Como já aqui disse, terão de convencer os potenciais eleitores que podem confiar neles, que não serão traídos de novo.

Ainda estão por esclarecer as responsabilidades da gestão do anterior governo PS na situação financeira-limite a que se chegou há 2 anos.

Ainda está por perceber o papel dos mercados financeiros, do BCE (Constâncio foi promovido após não ter supervisionado nada), da banca (BPN), dos grandes grupos económicos, da CE, do PR, do PSD (Passos já andava a preparar a sua carreira no poder durante a liderança de Manuela Ferreira Leite), etc.

E finalmente ainda está por provar até que ponto a cultura de base deste "novo rumo" é um caminho de reabilitação para a tal democracia de qualidade.

Também vão precisar de apoios supra-nacionais, europeus e outros. Mas deverão manter os cidadãos devidamente informados do que está em causa, de forma frontal e com coragem, sem evasivas nem teatros. 

 

Quanto a possíveis coligações:

É melhor um governo com uma agenda limpa, clara e transparente, que vai gerindo o país com acordos parlamentares e negociações com representantes dos trabalhadores, empresários, industriais, etc. e com associações e movimentos da sociedade civil, do que se deixar enredar em jogos políticos que só debilitam a confiança dos cidadãos nos políticosRespeitar a inteligência de quem se representa é fundamental.

 

 

 

Para finalizar este post com uma amostra da inteligência distante, indiferente e metálica do núcleo que nos governou estes dois anos, de forma a melhor se perceber como se pode destruir com powerpoints e excell, trago aqui uma cena de um filme que já tinha colocado na Farmácia Central. Através desta cena vão perceber melhor como funciona a cabeça do protótipo tecnocrata, seja o ministro das finanças seja um elemento da troika, do FMI, da CE. A distância emocional e monocórdica são próprias de uma inteligência artificial só comparável a um robô:

 

 

 

Nota de esclarecimento em 2 de Junho de 2014: Este ano vi tanta coisa que era inevitável uma mudança na minha perspectiva do grande plano. O mesmo é dizer que não fica incólume a tanto atropelo à justiça, à equidade, ao equilíbrio de poderes, a uma cultura democrática, ao simples e saudável bom senso. O impacto de tudo a que assisti com este governo-troika foi tal que posso mesmo dizer que fiquei vacinada de forma vitalícia contra o centro direita. Ou se tem uma cultura democrática ou não se tem, ou se têm valores cristãos ou não se têm. O centro direita ou direita ao centro é um tremendo equívoco cultural e político.

Foi também a observar as personagens actualmente no poder que fiquei esclarecida relativamente à minha visão idílica da primavera marcelista: sim, havia católicos progressistas e intelectuais com uma visão mais aberta do mundo, mas o sistema estava blindado como este está actualmente e não se iria abrir a uma democracia como cheguei a idealizar.

Dá-me a sensação que terei ainda de introduzir muitas notas de esclarecimento em diversos posts sobre assuntos-chave. Não quero contribuir para mais equívocos culturais, mesmo que se trate apenas de uma análise individual. 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:25

Resultados da aplicação da austeridade na economia, no trabalho, na emigração, nos serviços sociais, na democracia: o caso da Hungria

Domingo, 12.05.13

 

De vez em quando assisto ao programa Sociedade das Nações da Sic Notícias, e desta vez acompanhei com interesse a entrevista a Viktor Orbán, 1º ministro da Hungria. Primeiro fica a imagem de alguém que gosta de liderar e controlar, alguém que discursa com entusiasmo, desvalorizando a oposição interna, sobre a forma como se adaptaram às exigências do FMI, uma nova Constituição (aqui senti um arrepio), um imposto único de 16 % igual para todos (?) para não penalizar o trabalho, preferindo subir o IVA (!), taxaram a banca (ver para crer), as multinacionais (ver para crer), reduziram os deputados para metade, os políticos no activo para metade, etc.

Ao ouvi-lo ficou-me a ideia de uma sacudidela demasiado drástica para animar a economia. Alguma coisa me soou a marketing político e não a liderança democrática, embora o entrevistado se tenha mantido num discurso racional, sensato, moderado. No entanto, há frases que nos ficam a ressoar de forma incómoda: a Europa tem tido lideranças institucionais que não têm capacidade de resposta, agora precisa de lideranças pessoais, de líderes; as fronteiras não devem ser o mais importante, já perdemos parte do território depois da 1ª Grande Guerra e mais território depois da 2ª guerra mundial; os nossos valores baseiam-se no cristianismo (é muito vago).

 

Não inteiramente convencida com tanta competência auto-proclamada, fui procurar outras fontes de informação. Passei pela BBC Hard Talk mas só encontrei uma entrevista a um especialista de marketing político do governo, o ministro da Comunicação(!) que se defendeu muito bem. Em todo o caso, reparem como o ministro acaba por utilizar palavras como oportunidade, reformas estruturais, medidas, com as quais já estamos demasiado familiarizados.

Resolvi procurar melhor no youtube informação concreta sobre a vida diária das pessoas:

 

 

Como se pode verificar, a estabilidade que uma maioria promete, pode levar a excessos na aplicação de programas como este da austeridade. Parece ter sido o que aconteceu aqui, a começar por construir uma nova Constituição (apenas em 9 meses e sem a participação de todos). Sempre que os governos nos falarem na Constituição, já sabemos o que se segue. Por cá esse discurso da necessidade de modernizar a Constituição e adaptá-la a uma nova conjuntura tem sido contrariada. Reparem nos riscos destes atropelos à Constituição de um estado. É por onde tudo começa no caminho da anulação da democracia e da utilização dos mecanismos democráticos.

Reparem como o estado social, os serviços prestados aos cidadãos, foram quase liquidados. São as pessoas que sofrem. A economia não está a crescer, mesmo com o imposto único, aumentando a divergência entre pobres e ricos (ou melhor dito, remediados, que preferem poupar a consumir).

E reparem como a banca não perde, antes ganha com estes planos de austeridade, pelo menos por enquanto.

Quanto aos media, por cá ainda não temos esse problema, cá as pessoas são inundadas com ficção informativa e opiniões de comentadores e futebol e telenovelas em doses apropriadas em todos os canais de televisão.

 

Porque me interessei tanto por analisar a situação da Hungria?

Primeiro, pela semelhança da sua gestão política mais recente com a nossa: governos socialistas levaram 2/3 dos cidadãos do país a votar numa proposta de centro-direita que os ajudasse a sair da falência. O programa seguido por este novo governo que, tal como o nosso, quis ir para além do FMI, acabou por se revelar desastroso para o seu povo.

Segundo, porque admiro muito o povo húngaro, a sua coragem e amor pela liberdade. Já aqui lembrei a resistência à invasão soviética no documentário Fúria da Liberdade. Um povo assim, que tem a liberdade no seu ADN, é um povo que não se deixará intimidar ou controlar, apesar das condições difíceis que lhe estejam a impor.

 

 

Já iniciei esta viagem virtual pelos países europeus em apuros, com a Grécia, na Farmácia Central e nas Vozes Dissonantes. A seguir, talvez vá até ao Chipre, à Eslovénia, à Irlanda e depois aqui ao lado, à Espanha.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:10

A percepção da realidade de uma consciência abrangente

Quinta-feira, 09.05.13

 

Uma capacidade humana é a de aprender, abrir os horizontes, mudar a sua percepção da realidade, isto se estiver receptiva e curiosa em relação a tudo o que a rodeia, às pessoas concretas, às comunidades, à forma como se organizam.

Sempre me interessei pela análise da cultura de base de indivíduos e grupos, de empresas, de partidos políticos, de governos, das lideranças de grandes organizações (como a UE, por exemplo).

A minha análise está mais virada para a influência da cultura de base na intervenção política ou na intervenção financeira, pois tem um peso determinante na vida das pessoas.

 

Mantenho actuais algumas das minhas análises: a guerra do Iraque, por exemplo, que considerei uma invasão sem qualquer justificação possível. Participei em 2003 na manifestação em Lisboa. Antes dessa, só tinha participado na vigília por Timor. Depois dessa, só numa mini-manifestação (por falta de comparência de muitos) pela liberdade de expressão.

 

 

Análise da cultura de base do anterior governo PS:

 

Embora hoje já tenha mais elementos de comparação entre a gestão do anterior governo com a do actual, ainda mantenho o essencial da análise da cultura de base do anterior governo: cultura corporativa (grandes grupos económicos e financeiros, a banca, os grandes negócios). O seu estilo era, no entanto, modernaço: o deslumbramento pueril de um modernismo dispendioso, a desorçamentação, as PPPs, as fundações, os institutos, os estudos disto e daquilo, o TGV e o novo aeroporto, a ausência de supervisão bancária com o resultado desastroso.

Verificou-se a prioridade da imagem sobre a realidade concreta, a sociedade-espectáculo em powerpoint, o perfil do urbano moderno, rico e famoso como o exemplo de sucesso a seguir, a promoção de uma vida saudável e acéptica, as causas fracturantes, a aceleração do abandono do interior do país só lá colocando as hélices de uma energia verde para contribuinte pagar, o desprezo pela agricultura e pescas, pela terra como fonte de autonomia alimentar.

Verificou-se o aumento da diferença entre ricos e pobres, o aumento do desemprego e da emigração, números que nunca foram devidamente contabilizados. Foi também o início da desintegração social, a perseguição da ASAE aos feirantes e pequenos negócios de rua, preferindo ver essas pessoas a viver na dependência de subsídios, o polémico RSI. Quanto à grande evasão fiscal, pouco ou nada.

Em todo o caso, o estado social, ou seja, os serviços públicos prestados aos cidadãos foram preservados dentro de alguma qualidade e segurança. Digamos que havia um limite que nem o anterior governo, já com a corda ao pescoço, teve a lata de pisar: o limite das regras básicas de uma constituição democrática. Apesar dos tiques de um certo autoritatismo e a tendência para controlar a informação, procurava-se pelo menos a eficiência dos serviços públicos, não a sua destruição e alienação como vemos agora acontecer.

Se esse caminho também iria ser percorrido se o PEC 4 tivesse passado? Não sei. É certo que já se falava na desvalorização do trabalho, Manuel Pinho foi vender essa ideia à China, António Borges penso que já andava a fazer a sua acção de evangelização, mas teriam ido tão longe como este governo?

 

 

Cultura de base do CDS:

 

Aqui confesso que a minha análise da cultura de base do CDS, que pensava democrata cristã, estava completamente errada. Aqui não tenho atenuantes, pois os sinais estavam todos lá, a sua marca registada de cultura corporativa de estilo profundamente elitista, de sentimento de pertença às classes privilegiadas, tal como no Estado Novo. Há ali um saudosismo desse respeitinho quando falam de uma tradição caduca e ultrapassada.

Um dos sinais a que não dei o devido valor, mas já estava tudo lá, foi a sua perseguição ao RSI no período do anterior governo, quando se deu início à tal desintegração social através da perseguição da ASAE aos feirantes e pequenos negócios de rua de que falei lá atrás, que acabou por colocar essas pessoas a viver na dependência de subsídios. Foi nesse processo do RSI que eu vi a face mais mesquinha e moralista da cultura corporativa: primeiro os modernaços do PS retiram-lhes a sua forma natural de vida, de uma economia paralela de subsistência, para os colocar na subsidiodependência e, com isso, retirar-lhes a dignidade e autonomia (vítima uma vez), para depois serem culpabilizados por políticos moralistas do CDS como não querendo trabalhar e preferindo viver à custa do contribuinte (dupla vítima).

Podiam ter começado, pelo menos, por exigir com o mesmo entusiasmo a fiscalização da grande evasão fiscal, pois é essa que vale não sei quantos mil milhões.

Mas honra lhes seja feita, falaram na agricultura (que agora esqueceram) e na ausência de supervisão bancária.

 

Esta minha súbita lucidez tem um sabor amargo: o meu equívoco levou-me a apostar num Momento e a contribuir, embora à minha pequena escala, para a emergência de uma cultura que não se fica por não ter assimilado e interiorizado as regras da democracia, mas por ser mesmo anti-democrática.

Afinal Este é o Momento em que acreditei (valha-me Deus!), era o momento da compensação desejada, não no sentido de vingança propriamente dita, mas de uma certo ajuste de contas com a história. Ao lado de Durão Barroso e de Santana Lopes isso não foi visível porque havia Bagão Félix como mentor e símbolo moral da cultura verdadeiramente democrata-cristã. Mas agora não há Bagão Félix no governo e Passos Coelho está longe de ser um Durão Barroso e não tem a natureza empática e tolerante, próprias de uma cultura democrática, de Santana Lopes. Assim, os CDS, em roda-livre, revelaram a sua verdadeira natureza.

E ainda conseguiram ultrapassar um limite moral que nunca julguei possível: desprezar os mais fracos (reformados) colocando-os no joguete político para tentar salvar o seu peso eleitoral. Os reformados não precisam nem de paternalismo nem de caridadezinha, precisam de respeito, tal como qualquer cidadão. Mas isso eles não conseguem entender ou aceitar. Para isso, era preciso interiorizar a cultura democrática e estão muito longe de o conseguir.

 

 

Cultura de base do PSD:

 

Também aqui me enganei: embora não me tenha apanhado de surpresa na cultura corporativa de base, o PSD conseguiu ultrapassar todas as minhas expectativas. A sua cultura de base não é apenas corporativa semelhante à do anterior governo (grandes grupos económicos e financeiros, a banca, os grandes negócios). É que o anterior governo, apesar de bom aluno de Bruxelas, queria pelo menos andar para a frente, para um futuro cibernético, de uma economia virtual, de energia verde, da internet, da investigação, da educação de sucesso para todos, das novas oportunidades, puxar pelo país, de um país práfrentex, do simplex (algumas destas iniciativas até tinham algum mérito, nem que fosse só nas suas boas intenções).

 

Onde o PSD me surpreendeu é que, em vez de se virar para o futuro se tenha virado para o passado, para um tempo semelhante ao do Estado Novo, e de não ser apenas um bom aluno de Bruxelas, é um clone dos tecnocratas de Bruxelas, um robô-tecnocrata de Bruxelas. Na verdade, a troika nem precisava de se dar ao trabalho de cá vir, devem ter de se vir mostrar nos corredores do poder só para assustar os portugueses e convencê-los que eles são a troika. A troika já cá estava antes da troika descer do avião

Claro que também me conseguiu surpreender e apanhar de surpresa quando, em vez de cortar nos mais fortes, começou logo a cortar nos mais fracos e remediados. Assim como o facto de reduzir a sua intervenção ao ministério das finanças e a cortes disto e daquilo, parecia o Eduardo Mãos de Tesoura.

Não sabia que gerir um país era colar-se às exigências dos credores, ficar do lado dos credores, associar-se aos credores, contra os seus conterrêneos, chegando ao cúmulo de se identificarem culturalmente (nos preconceitos norte-sul da Europa) e moralmente (culpando as pessoas da má gestão política e financeira) com os nossos credores, para assustar e manter em suspense os seus conterrâneos.

O resultado é a liquidação dos serviços públicos (talvez um sonho antigo, estilo Margaret Thatcher), depois de terem destruído a economia nacional (micro, pequenas e médias empresas).

 

 

Gerir um país é isso? Cortar aqui e ali? 

Pensava que gerir um país era dar o exemplo, nisso até Salazar era melhor. 

Pensava que gerir um país, era contar a verdade às pessoas, a dimensão da dívida, a origem da dívida, a natureza da dívida. E isto por montantes exactos.

Depois, informar as pessoas sobre as exigências dos credores e explicar as suas razões.

A seguir, informar sobre o que iriam fazer para minimizar os danos na economia e na vida das pessoas e das famílias, como iriam tentar negociar na Europa melhores condições para o seu país e os seus conterrâneos.

 

 

 

Esta é a minha análise, ainda por verificar e validar, relativamente ao governo:

 

O que os cidadãos vêem como insucesso, este governo vê como sucesso: é o desemprego e a emigração que permitem a desvalorização do trabalho, pois o investimento privado que querem atrair baseia-se em mão de obra barata e trabalho precário.

Esse é o modelo de país que serve os grandes grupos económicos e financeiros que por cá passarão enquanto for rentável para depois irem sugar outros países e outros recursos.

 

Este é também o modelo de Europa que os tecnocratas desenharam, com diferenças norte-sul, países de 1ª e de 2ª. Para conseguirem o controle absoluto (onde cabe aqui a democracia e os cidadãos?) têm de conseguir o controle fiscal (!) e político (!!) dos países da eurozona.

 

 

 

E ainda falta a análise da cultura de base do PCP, do BE e dos Verdes:

 

Esta análise é a mais difícil, em parte porque ainda não fizeram parte de nenhuma equipa governativa, a não ser o PCP no verão quente e com Vasco Gonçalves.

Já tinha lido alguns livros na Primavera marcelista para saber que a organização colectivista, aplicada a uma comunidade e a uma cultura, nega a própria natureza humana: a diversidade desejável, a criatividade, a rebeldia, a vitalidade.

Posso é já adiantar, mas está por testar, que a expressão eleitoral estável do PCP se explica não apenas pela cultura corporativa do PSD, PS e CDS, mas também pela forma como gerem o poder, cada um ao seu estilo: tecnocrata autoritário europeísta do PSD; gestão pública danosa do PS; e o elitismo tradicional moralista do CDS.

 

Talvez também por estas razões o BE chegou a ter uma expressão eleitoral significativa e actualmente volta a estar a subir na simpatia dos potenciais eleitores.

Do BE recordo o papel importante de Miguel Portas, não apenas como eurodeputado, mas como homem do mundo, da nossa universalidade, qualidade tão portuguesa e talvez inigualável. Os seus documentários eram verdadeiras aulas de história das culturas.

Francisco Louçã está a revelar-se melhor comentador-professor-escritor do que deputado. E a entusiasmada Catarina Martins, agora mais calma, tem revelado empenho e entusiasmo nas suas intervenções. 

Quanto à sua cultura de base, consigo para já identificar a rebeldia, o seu protesto contra uma tendência corporativa mundial dominada pela finança.  Essa tendência hoje é visível. Só recentemente compreendi a razão dos seus protestos nas reuniões do G8 e do G20, que antecederam as transferências de capital da economia e dos contribuintes para os grandes bancos, que por sua vez antecederam as actuais reuniões e intervenções das troikas e dos tecnocratas de Bruxelas. Também só recentemente compreendi o movimento Occupy Wall Street. Enquanto esta perigosa concentração de poder das corporações e da finança se mantiver a nível europeu, reflectindo-se nos países do sul e do leste, o BE terá expressão eleitoral, independentemente da sua ideologia política estar ou não datada.

 

Os Verdes são os Verdes, iguais a si próprios desde que ouço Heloísa Apolónia nalgumas das suas intervenções. Certeira no diagnóstico, estilo provocador, actualmente mais conciliatória talvez por perceber que a nossa situação é mesmo de emergência.

 

 

Digamos que actualmente quem diagnostica melhor a realidade pode não estar ainda preparado para propor o melhor caminho, mas a percepção da realidade já é um passo.

A sociedade civil está muito mais atenta, também é nela que vemos a vitalidade e criatividade da mudança cultural para uma democracia de qualidade, uma sociedade inteligente, aberta, criativa, tolerante, inclusiva.

E os jovens são os que estão melhor posicionados para dinamizar os movimentos cívicos: por uma economia da colaboração, liberta de constrangimentos, nas áreas que nos permitem autonomia alimentar, industrial, energética, tecnológica, da investigação científica. E por uma sociedade em que todos tenham acesso à saúde de qualidade e à educação de qualidade. 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:28

A responsabilidade da possibilidade de um "novo rumo" para o país

Segunda-feira, 29.04.13

 

Gostaria de analisar alguns acontecimentos nacionais recentes em termos políticos (as decisões, a intervenção, o poder), económicos (a vitalidade, a substância, a base) e sociais (os grupos, as comunidades, os cidadãos).

 

Com0 vimos, as comemorações do 25 de Abril revelaram algumas fragilidades do sistema e uma nova fronteira cultural: os que estão do lado da lógica da austeridade (do lado financeiro, do lado dos mais fortes, cultura corporativa) e os que estão do lado da negociação (do lado da economia, do lado dos mais fracos, cultura da colaboração).

Esta fronteira não se pode definir apenas por partidos de direita ou de esquerda, essa já é uma divisão artificial, é essencialmente uma questão cultural mais profunda, tem a ver com a acção de cada um. É pela acção (o que faz, o seu exemplo) que cada um reflecte os seus valores e princípios.  

Na cultura corporativa (linguagem do poder), por exemplo, não temos apenas os que defendem os seus privilégios e excepções, temos igualmente os que acreditam que só alguns podem ter acesso à qualidade de vida e querem pertencer a esse grupo (conformismo).

Na cultura da colaboração, do mesmo modo, podemos vir a encontrar pessoas em lugares de responsabilidade que perceberam que só com a mobilização de muitos, cada um no seu papel, com o seu talento e criatividade, temos a possibilidade da animação da economia (a vitalidade de um país), a redução da dívida pública e a autonomia.

 

 

E agora o congresso do PS, que me surpreendeu pelo profissionalismo:

 

Gosto de ver um trabalho bem feito, do rigor, da dedicação. E foi o que vi neste congresso do PS. Um espaço simples e arejado, com as cores certas, a música de fundo certa, as bandeiras do país em vez das bandeiras partidárias. A expressão "um novo rumo" sintetiza todo um projecto. Outra expressão "as pessoas primeiro". Vemos já aqui, antes mesmo dos oradores subirem ao palco, uma mensagem clara: trata-se do país, das pessoas concretas. Este congresso é para o país e para as pessoas.

 

- Os apoios internacionais são fundamentais para se validar um projecto, para ser percebido como viável, para ser apresentado como uma nova  onda europeia. Isso foi conseguido.

- A afirmação de uma equipa coesa ficou, para já, conseguida. Mas esta é, como veremos, uma das condições mais delicadas. É assim que se garante a coerência e a consistência de um projecto. 

- Uma mensagem política implica autenticidade (verdade) e responsabilidade (realidade). Os dois discursos do secretário-geral, baseados na observação da realidade, nos resultados da lógica da austeridade, e propondo iniciativas viáveis, foram adequados. E sobretudo o tom de entusiasmo, afectivo, da abrangência e da tolerância. Passou a mensagem de estar atento, de acolhimento e de um caminho possível se todos quiserem: "um novo rumo" e "as pessoas primeiro".

- "Inteligência" foi uma palavra utilizada e muito bem aplicada. Raramente os políticos a utilizam para fundamentar as suas decisões, assim como a humildade de avaliar os resultados de algumas decisões e mudar.

- A insistência na economia e no trabalho, "as pessoas primeiro", a vitalidade de um país e a sua viabilidade. O valor do trabalho na prioridade emprego, emprego, emprego. As empresas como os motores da economia, as áreas produtivas.

- A coesão territorial também muito importante. A proximidade dos serviços aos cidadãos.

- Salvar o núcleo do Estado Social: a saúde e a educação. Não destruir o que de melhor se construiu. Melhorar a sua eficiência.

- A abertura à colaboração de todos os enquadramentos políticos, de todos os grupos da concertação social, de todas as associações e movimentos (a tal colaboração políticos - sociedade civil). E sim, concordo que essa abertura se mantenha mesmo que venham a conseguir uma maioria absoluta. 

- Outro aspecto fundamental para credibilizar os políticos e a representação política partidária: os políticos como exemplo cívico, de uma democracia de qualidade.

- Também o respeito institucional, o respeito pelos órgãos de soberania, mesmo que se discorde das suas decsões.

Estava lá tudo, sem dúvida.

 

 

Em relação à coesão interna:  esta é a parte mais delicada como disse atrás, e a mais importante, porque é a base da possibilidade da concretização de todo o projecto que já se pôs em movimento. A equipa une-se desta vez à volta de um desafio para o país, de um projecto maior do que qualquer grupo partidário, e já não (como antes) à volta de um líder político, de uma personalidade (culto da figura do herói, como o ex-PM). Alguns egos políticos parecem ainda não ter interiorizado a cultura da colaboração que se quer iniciar. A tentação de emergirem de novo, de insistirem nos velhos hábitos (agressividade de discurso contra o governo ou o PR, afirmação competitiva face a outros partidos), pode estragar a mensagem que se quer transmitir para mobilizar todos e cada um, e acabar por boicotar esse projecto.

 

 

Espero que esta equipa tenha bem consciente a responsabilidade de ter criado a expectativa da possibilidade de "um novo rumo" para o país, nas pessoas que têm sido massacradas com mais cortes previstos e que têm vivido estes dois últimos anos a angústia de serem os próximos a ficar sem trabalho.

Esta responsabilidade é enorme, exige o envolvimento de toda a equipa e dos que se juntarem a essa onda, diariamente.

Já vimos como muitos projectos promissores terminam por nos decepcionar devido à cultura de base dos seus elementos e à atracção de oportunismos vários, sempre que surge a vitalidade de um trabalho bem feito e da dedicação de alguns.

 

Desejar-lhes boa sorte é tudo o que posso dizer. Apreciei o seu trabalho, conseguiram surpreender-me e isso não é fácil: já cá ando há muito tempo a observar e a registar, e sinceramente, apenas fui permeável às mensagens políticas de Sá Carneiro e, muitos anos mais tarde, dos Estados Gerais de Guterres, da política de verdade de Manuela Ferreira Leite e, mais recentemente, de Este é o momento de Paulo Portas. Já vimos que todos eles duraram muito pouco, engolidos por outras agendas políticas dominantes.

Hoje só um projecto abrangente que mobilize a sociedade civil pode lidar com os desafios que a actual lógica dominante na Europa e no mundo financeiro nos quer impor.

 

 

Quanto à variável Europa, inserida nos discursos e que não depende de nós (embora uma onda de vários países já possa contar), considero fundamental - e já que o Presidente resolveu falar do pós-troika - que, além de se fazer a ginástica possível com os constrangimentos da dívida e da moeda única, se comece a preparar uma possível saída do euro. As duas hipóteses estão já a 50-50.

 

Falar de federalismo europeu é necessário para não assustar alguns cá dentro e lá fora, mas... cá para nós (e poucos Viajantes passam neste cantinho), isso já não é possível.

Depois dos cidadãos europeus, sobretudo os do sul e do sudeste, terem percebido o que os gestores do poder político e financeiro e alguns cidadãos de países do norte estão dispostos a fazê-los penar (sem casa, ausência de cuidados de saúde, sem acesso à educação, fome), acham mesmo que embarcam nessa armadilha? Acham mesmo que depois desta violência, porque há muitas formas de violência, os cidadãos embarcam em mais um projecto maníaco e perverso como esse?

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:12

Aproximação partidos políticos - sociedade civil: alguns equívocos culturais

Sexta-feira, 26.04.13

 

O dia de ontem ainda nos traria mais uma surpresa e igualmente no programa Política Mesmo da tvi 24: uma entrevista de Paulo de Magalhães a uma das figuras conhecidas na segunda fase do anterior governo PS: João Tiago Silveira. Lembram-se dele? Um rosto redondo de menino de coro que ficava sempre a sorrir por detrás dos protagonistas? Aquele que serviu de nova imagem do anterior governo PS e que vinha apresentar as novas medidas? 

Pois bem, parece que o entrevistado entregou uma carta ao Presidente do partido, juntamente com um grupo de outros militantes, com uma proposta de aproximação do partido à sociedade civil, para fazer pontes e abrir o partido à participação e colaboração dos cidadãos-eleitores.

Parece que esta proposta ainda não foi aceite para apresentar neste Congresso e compreende-se porquê:

 

Esta não é uma proposta credível de abertura à participação e colaboração da sociedade civil, porque se preocupa essencialmente com a abertura à participação dos cidadãos em eleições de candidatos à liderança do partido, assim como à possibilidade de votar em propostas e de apresentar petições em congressos.

Surge-nos assim de novo a marca registada do marketing político do anterior governo PS, o tal das propostas fracturantes (o entrevistado vai desfiando o seu rosário), a marca de uma cultura populista, que vive à volta da figura do líder, da imagem, da fama, do herói.

Esta marca registada revela-se própria de uma sociedade de espectáculo, da trash culture, do circo político: telemóveis em riste, marque o nº 70721 se quer o candidato A, marque o nº 70722 se quer o candidato B, tal como os Ídolos.

Esta proposta é muito à frente no séc. XXI, muitos filmes de ficção científica já anteciparam este circo global, a confusão geral onde ninguém se responsabiliza por nada nem ninguém pode ser responsabilizado. É eleito o mais popular, mesmo que pelas piores razões.

Onde está o espaço da reflexão?, da avaliação do perfil dos candidatos?, dos valores defendidos pelo partido?, do compromisso?, da verdade?, da qualidade e viabilidade das propostas?

 

O entrevistado só acertou na constatação da realidade actual: há realmente um fosso crescente entre os políticos e o eleitorado, entre o sistema partidário e a sociedade civil. Só que se esqueceu de dizer que a responsabilidade desse afastamento é dos partidos políticos, da sua actuação, do comportamento dos seus responsáveis e restantes elementos, da degradação a que chegaram, ética, moral e cívica, da governação política incompetente e da gestão ruinosa.

De facto, vemos a decadência dos partidos, como estão descredibilizados, desactualizados e obsoletos.

A frescura, a vitalidade e a criatividade estão do lado da sociedade civil.

 

Mas voltemos à proposta:

Se o entrevistado lesse uns livros de história política ficaria esclarecido e veria que essa aproximação à sociedade civil depende do partido arrumar a casa primeiro, como passo a explicar:

Partido = partido, subdividido em subgrupos, incoerências internas, indefinição do projecto, competição pelos lugares;

Arrumar a casa =  debater e reflectir, avaliar os erros cometidos, assumir as suas responsabilidades, mudar de estratégia. (Arrumar a casa não é varrer para debaixo do tapete como foi feito naqueles 4 meses providenciais entre o abandono de Guterres e o catapultar do ex-PM-actual-comentador-político.)

 

Mas o que é que os cidadãos vêem acontecer? Passar uma esponja sobre o passado e virar todas as munições contra os adversários, os outros partidos e as instituições do sistema.

 

 

Uma aproximação partidos políticos - sociedade civil implica uma alteração cultural profunda dos políticos, do seu comportamento, da lei eleitoral, da representatividade dos deputados na AR, da responsabilização dos gestores políticos por erros cometidos (competência), pela gestão danosa de dinheiros públicos (justiça). A confiança depende da verdade, da informação correcta e actualizada, da participação cívica diária.

 

Portanto, antes de se abrir à participação e colaboração da sociedade civil, o partido A ou B deve primeiro definir-se:

- a sua identidade, a sua cultura, os seus valores e princípios, o seu centro, a sua bússula, o que permanece intacto apesar das mudanças conjunturais;

- essa identidade (o essencial) deve ser coerente e consistente, e percebida, aceite e interiorizada pelos gestores políticos e pelas suas bases;

- essa identidade (o essencial) é a carta de apresentação à sociedade civil, no logotipo, no site, no discurso e na intervenção pública;

- o comportamento dos seus elementos deve respeitar essa identidade essencial (coerência e consistência) e ser um exemplo cívico (credibilidade).

 

A seguir vem o projecto conjuntural, a estratégia, que deve ser adequada à realidade, além de inteligente, viável e criativa.

A estratégia deve considerar prioridades bem definidas e o teste prévio da eficácia da intervenção proposta (o que implica ter bases de sustentação, apoios internacionais, fazer o trabalho de casa).

Na interacção com os outros partidos e com todos os responsáveis políticos, sociais, financeiros e económicos, deve revelar abertura e receptividade à negociação sempre que existir uma proposta concreta. E fazer a promoção das suas propostas, com entusiasmo e convicção, resistindo a opiniões e comentários críticos e/ou provocadores. O que interessa são as propostas, viabilizá-las. É isso que ficará registado na história, os resultados, o que funciona.

 

Ganhar a confiança dos cidadãos é um processo que exige muito trabalho diário e muita paciência, ir juntando pontos de credibilização até começar a ser percebido pela sociedade civil como grupo e como equipa consistente e credível.

Estes pontos ou créditos de confiança implicam uma informação correcta da realidade (verdade) e um comportamento coerente e consequente (o exemplo cívico).

 

Como vimos, são os partidos que terão primeiro de fazer o trabalho de casa. Quando forem percebidos como credíveis, a aproximação da sociedade civil, a participação cívica e a colaboração cívica, far-se-á naturalmente.

 

Hoje, com a comunicação facilitada e quase universalizada, os cidadãos já podem dar ideias e propor mudanças nos sites dos diversos partidos. É só enviar um e-mail ou fazer um comentário. Mas terá de haver espaço para um debate sério, não para o ruído da confusão geral e populista.

 

 

 

Nota: Gostava de, um dia destes, analisar os movimentos cívicos e como se estão a tornar cada vez mais activos e eficazes. 

Alguns já tentaram constituir-se como partidos políticos, entrando no sistema partidário e eleitoral. Resultados? Vantagens?

Para já, enquanto se mantiverem os equívocos culturais actuais, a lei eleitoral, o nº excessivo de deputados, a sua distância relativamente a quem os elege (representatividade), vejo como pouco vantajosa essa formalização.

 

 

Nota de esclarecimento a 2 de Junho de 2014: Muita coisa se passou neste país neste último ano. A nossa democracia foi-se fragilizando com o governo-troika e, com a opção presidencial por um apoio incondicional ao governo-troika, hoje já não se pode falar de um equilíbrio de poderes porque está tudo desequilibrado, e sempre que o tribunal constitucional dá pareceres é logo chantageado, e isto em cima de cidadãos mssacrados com impostos e cortes, despedimentos, ausência de perspectivas futuras.

Já não se ouve falar de um provedor de justiça, a figura desapareceu?, nem da procuradoria-geral da República, nem propriamente de Justiça. Talvez por isso os rsultados das eleições europeias tenham vindo abanar o status quo, de tal modo que surgiram dois novos factos políticos: o MPT com Marinho Pinto capitalizou votos de descontentes e desanimados, e no PS deu-se a invasão socrática, apoiada pelos media e com a expectativa tácita dos que defendem um consenso nacional, um bloco central digamos, o balão de oxigénio do sistema.

É neste novo contexto da existência de um desequilíbrio de poderes e da tentativa do sistema se proteger de uma nova configuração da AR nas próximas legislativas, blindando-se num bloco central, que procurei analisar de novo a proposta de primárias abertas para escolher o candidato a líder do partido, apresentado por Tiago Silveira e que, neste post, considerei populista, a não ser que se procedesse a uma revisão da actual lei eleitoral. Pois bem, o assalto ao poder do Presidente da Câmara de Lisboa baseia-se na pretensão de conseguir mais votos para o PS do que os obtidos por Seguro nas eleições europeias. Não se trata de debater um projecto que faça frente ao novo rumo com o qual parecia estar de acordo, não, é apenas uma questão de popularidade. Sendo assim, a única forma de provar que sim, está melhor colocado para obter mais votos, é em primárias abertas.

Esta invasão socrática acabou por despertar de novo, numa parte do PS, esta aproximação aos cidadãos. É esta a parte positiva, a meu ver, a possibilidade de liderarem uma revisão eleitoral que torne a AR mais representativa. E a proposta foi mais longe: a redução a 180 deputados. Se esta linha regeneradora do PS for a vencedora nas primárias, o PS será o partido tradicional a revelar mais vitalidade e criatividade.

Claro que a democracia incomoda muita gente, a possibilidade inovadora dos cidadãos participarem na vida colectiva, isto é, uma democracia mais representativa e participativa é uma amaeaça para as elites no poder há décadas, o rotativismo garantido, o controle da máquina estatal e da administração pública, das empresas públicas e público-privadas, as fundações, as decisões opacas, a alienação de recursos estratégicos, as promessas à troika. Prevêem-se portanto muitas reacções, com o apoio dos media, sobretudo nos canais televisivos, onde estão os políticos comentadores estrategicamente colocados para a propaganda semanal.

Este episódio no PS exemplifica o estado actual da nossa democracia. Podemos mesmo dizer que se trata de uma autêntica "luta de classes", uma jornalista que entrevistou Seguro até insistia que do lado do seu adversário estavam muitos "notáveis" A resposta foi certeira: a democracia é fantástica, uma pessoa um voto.  

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:03

As vozes das mulheres na política activa

Quinta-feira, 25.04.13

 

Ora finalmente vozes de mulheres numa comemoração da revolução dos cravos. Uma lufada de ar fresco dos egos masculinos que tudo ocupam com a sua verbosidade sem alma. Precisamos de mais vozes de mulheres na política activa.

 

 

Mulheres que, relativamente aos valores humanos fundamentais, se posicionam, a meu ver, em 2 grandes grupos:

 

- umas já se libertaram da linguagem do poder masculina e da necessidade de aprovação social (conformismo): mulheres feitas, autónomas, corajosas, que pensam pela sua própria cabeça, que defendem os valores humanos essenciais e que coincidem necessariamente com os valores de uma democracia de qualidade, e propondo, com entusiasmo e convicção, diversos caminhos que correspondem às suas afinidades filosóficas, sociológicas e políticas. Neste primeiro grupo encontram-se, a meu ver: Heloísa Apolónia (Verdes), Catarina Martins (BE) e Paula Santos (PCP);

 

 - outras ainda se mantêm na linguagem do poder masculina e na necessidade de aprovação social (conformismo), algumas não se apercebendo desse facto: mulheres à procura do seu papel no teatro político, com ambições pessoais a sobrepor-se aos valores humanos essenciais próprios de uma democracia de qualidade. Embora o seu discurso refira esses valores, revelam falta de entusiasmo e convicção além de equívocos culturais: assistencialismo não é equidade nem dignidade, é paternalismo. Neste segundo grupo encontram-se, a meu ver: Cecília Meireles (CDS) e Assunção Esteves (Presidente da AR).

 

Coloquei Paula Santos (PCP) no primeiro grupo apesar da sua formatação cultural a um enquadramento sociológico obsoleto da família política a que pertence, porque revela um contacto com o concreto e a vida das pessoas.

Quanto a Cecília Meireles e Assunção Esteves, espero não estar a ser injusta com estas mulheres: Cecília Meireles não sei se alguma vez conseguirá fazer esse exercício de transição para a verdadeira autonomia, julgo que permanecerá na segurança do conformismo, da aprovação social e do politicamente correcto. Assunção Esteves pode estar intelectualmente próxima dos valores essenciais de uma democracia de qualidade, mas precisa ainda de sair do formal para o concreto, dos livros para a vida.

 

 

Vamos agora analisar muito rapidamente as 3 vozes masculinas do dia e ver se ainda há reabilitação possível:

 

- Alberto Costa foi, das 3 vozes masculinas, a que mais se aproxima dos valores essenciais. O PS escolheu alguém respeitado e actualizado em relação à Europa. Foi, aliás, o unico que conseguiu aplausos de todas as bancadas ao lembrar um dos capitães de Abril, Marques Júnior;

 

- Carlos Abreu Amorim foi a escolha do PSD. O consenso foi o mote do discurso. Como se poderá facilmente desmontar, consenso é a proposta do conformismo e da aceitação acrítica, e aqui estamos em plena linguagem do poder. Todo o discurso está elaborado numa perspectiva histórica pretensamente patriótica, mas são apenas palavras, verbosidade sem alma;

 

- o Presidente da República utilizou um discurso contraditório e muito mal organizado: deveria ter começado pelo fim, essa era a parte que deveria ter lido logo no início, porque era a parte que dizia respeito ao país e aos seus conterrâneos. Depois, limar as arestas de um discurso enfandonho que foi construído cuidadosamente para não escandalizar por esta ordem: troika, BCE, CE, FMI, Alemanha, banca, mercados, governo. Ora, essa tarefa é impossível: defender o país e os seus concidadãos vai implicar necessariamente desagradar a todas essas entidades, governo incluído.

Ao ser percebido como estando do lado de lá, tal como o governo é percebido hoje, está do lado errado, e comprometeu talvez irremediavelmente a possibilidade de exercer uma influência activa no caminho do país para a sua recuperação. Limitou assim a sua influência para o lugar escondido onde tem permanecido: os bastidores, por detrás das cortinas.

De resto, nada a dizer, a não ser que é, actualmente, um pré-reformado presidencial. Isso percebe-se quando escolhe a palavra fadiga para adjectivar a austeridade que os cidadãos sentem na pele. A fadiga é a dele. A fadiga é um privilégio dos ociosos. O que os cidadãos sentem não tem nada a ver com fadiga. O que os cidadãos sentem é insegurança, incerteza, angústia, receio, desespero, aflição.

 

 

Nota: Metade dos oradores do dia nasceu depois do 25 de Abril de 74 ou eram ainda crianças. Achei esse ponto interessante. Seria uma variável a  considerar relativamente à frescura do seu discurso, mas à partida parece não os distinguir (ex.: Heloísa Apolónia, Cristina Martins, Paula Santos, Alberto Costa, do lado de um discurso que se refere à realidade concreta, à vida dos cidadãos; Cecília Meireles, Assunção Esteves, Carlos Abreu Amorim, Presidente da República, do lado do discurso abstracto e obsoleto).

 

 

 

E o dia não iria terminar por aqui:  Depois da festa dos diversos rostos do poder na Assembleia da República, veio a festa dos cidadãos na rua, de Pombal ao Rossio, discursos no Rossio, e o desaguar finalmente e simbolicamente no largo do Carmo.

 

 

Reacções ao discurso do PR:

 

Dos cidadãos: parece que a generalidade dos cidadãos que ligaram para a Antena Aberta da Sic Notícias e os entrevistados nas celebrações na rua não gostaram do discurso do PR. Digamos que não só não gostaram como estavam decepcionados uns, indignados outros. Que o PR não estava à altura das suas funções. Que o PR estava a defender o governo. Que o PR mais parecia um Chefe do governo do que um Presidente.

 

Do PS: acusaram o toque ainda no corredor da AR e de forma muito contida na recepção dos colegas estrangeiros da família socialista que organizou o congresso em Lisboa. Prometeram falar disso durante o congresso. 

 

Dos comentadores políticos: parece que só Manuela Ferreira Leite e Paulo Rangel entenderam de forma diferente o discurso do PR.

 

No Política Mesmo da tvi 24 (aos 22:30), Manuela Ferreira Leite tenta controlar os danos causados pelo discurso do PR, mais uma vez se aproximando do estilo usual do Prof. Marcelo: que não tinha visto no discurso uma provocação ao PS, que não entendia a reacção do PS, que o consenso era dirigido aos dois PSD e PS, que o PS estava amuado. 

Já identificámos aqui mais uma estratégia da linguagem do poder: tentar desvalorizar o direito à discordância do outro infantilizando-o. Aliás, o Prof. Marcelo recorre a esta estratégia frequentemente.

No entanto, Manuela Ferreira Leite esteve bem quanto à possibilidade do governo apresentar mais cortes no dia seguinte. Aqui foi peremptória: Há dois dias foi apresentado um pacote ou um projecto ou enfim, um conjunto de propostas no mínimo, para fomentar o crescimento. Agora amanhã temos outro conselho de ministros para fomentar o contrário do crescimento? Quer dizer, às 2ªs, 4ªs e 6ªs crescemos e às 3ªs, 5ªs e sábados entramos em recessão? Temos de nos entender mais ou menos. Não estamos à altura de mais medidas recessivas porque já toda a gente se apercebeu que essas medidas recessivas não resultam em efeitos sobre a consolidação das contas públicas, portanto direi que são gratuitas do ponto de vista da consolidação orçamental, e são altamente penalizantes do ponto de vista da recessão. Se amanhã tomamos medidas recessivas então anulamos quaisquer medidas que tenham algum interesse do ponto de vista do crescimento económico. Pior um pouco, é que as medidas recessivas terão efeitos imediatos e as medidas de projecto de crescimento não têm efeitos imediatos. Entramos ainda mais em recessão? Há medidas ainda sobre aquelas que já existem? ... Vamos então ver que medidas vão ser tomadas. Se me disser que as medidas tornam a ser cortes nos vencimentos da função pública e pensões, ... então seria algo para não valer a pena estarmos aqui a discutir porque parece que estamos todos a trabalhar para um objectivo directo e efectivo de aumentarmos a recessão. ... Existem muitos pontos na função pública que nada têm a ver com os salários nem com as pensões e que poderão bem ser consideradas... Nunca o desvio das contas públicas foi atribuído oas salários da função pública ou às pensões, nunca. Isso é um ponto que merece uma discussão mais alargada, ... e esse buraco que aparece agora nas contas públicas (os 3 mil M€ das especulações financeiras com dinheiros públicos, em empresas públicas) é um bom exemplo de coisas efectivamente sérias do ponto de vista da dimensão do défice que provocam, que acontece no sector público, nas empresas públicas, nas autarquias, nas regiões autónomas, ... muitas coisas que nada têm a ver com os sectores que têm estado a pagar tudo isto. E ainda vai haver mais, é? Eu não acredito. ... parece-me absolutamente bizarro. Não sou capaz mesmo de imaginar que se torne a reincidir num sector que já levou não sei quantos cortes, é que já não é cortar pela primeira vez, é cortar pela terceira ou pela quarta. ... A fase da emergência há muito que passou.

 

Logo a seguir e igualmente na tvi 24, no programa Prova dos 9, Paulo Rangel, o outro comentador que, tal como Manuela Ferreira Leite, tentou desvalorizar o impacto negativo do discurso presidencial, alega a má elaboração do texto, que o texto estava confuso e que por isso terá sido mal interpretado, pois não via ali nenhum apoio à política seguida pelo governo nem nenhuma crítica dirigida à oposição. Que, aliás, o PR até tinha sido duro com as políticas da Europa. Estes argumentos não convenceram. Um texto mal elaborado não retira algumas das suas partes. E estavam lá implícitos recados à oposição: nem pensem em eleições, isso é colocar os interesses partidários à frente dos nacionais... e não explorem a angústia do povo.

Interessante como este paternalismo, aliás a cultura de base do cavaquismo se bem se lembram, está aqui presente e é uma das heranças culturais do salazarismo. O actual PSD revela ser um depositário de muitos tiques culturais desse tempo.

Vemos, também aqui, mais estragos provocados pelo regresso do anterior PM como comentador político da televisão pública. Porque o PR, sobrepondo ele mesmo as contas a ajustar com o PS desse governo, não resistiu a revelar isso num discurso que deveria ter sido pedagógico e ionspirador em dia de celebração da liberdade, fraternidade e esperança.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:11

Que valores estão as mulheres na política activa a defender?

Domingo, 21.04.13

 

Num recente programa Política Mesmo da tvi 24, com Paulo Magalhães, 4 deputadas, Francisca Almeida do PSD e Teresa Anjinho do CDS/PP de um lado, Marisa Matias eurodeputada pelo BE e Paula Santos do PCP do outro, ainda pensei: para variar vamos ver o que estas mulheres têm para nos dizer, já cansa ouvir só homens e debates entre egos masculinos. Mas mal sabia eu a decepção que iria ter... 

 

Francisca Almeida, deputada do PSD, com a sua voz estridente que se deve ouvir nos cantos da sala da assembleia, com argumentos bem assimilados tipo propaganda governativa e a papaguear mais alto do que as adversárias, uma estratégia tão cara aos deputados da assembleia mas insuportável num debate para espectadores que querem ser informados, revelou estar apenas preocupada em defender o seu lugarzinho no parlamento e em defender o chefe.

 

Teresa Anjinho, do CDS/PP, parecia uma bonequinha de plástico muito in num certo meio e muito bem comportadinha (o nome fica-lhe bem), um exemplo de mimetismo social (a personagem que me surgiu foi Leonor Beleza) de que sofrem os políticos e todas as pessoas com ambições sociais: imitar o mentor idealizado, uma necessidade de aprovação social e o discurso certo para o efeito. Caricata a elaboração da sua pergunta à eurodeputada do BE em que inclui a resposta na própria pergunta, com o seu ar autoritário. De resto, apenas retórica e propaganda.

 

Na verdade, depois de as ter visto e ouvido pela primeira vez, verifico que não estamos perante mulheres já feitas, autónomas, corajosas, e que sabem pensar pela sua própria cabeça, mas debutantes mimadas, que nada sabem da vida, das pessoas que dizem representar, do país que dizem defender, e que dependem da sua capacidade de agradar ao seu grupo de referência (aprovação social). Uma verdadeira decepção.

Como um dia as duas irão verificar, quando adquirirem alguma maturidade, estão culturalmente obsoletas, cada uma no seu género e no que representa, renderam-se à linguagem do poder essencialmente masculina, do mais forte a submeter o mais fraco, considerando normal e saudável a manutenção da cultura da caridadezinha, da vocação assistencialista do Estado. Falam de emergência mas sem qualquer emoção. O que as move é apenas garantir o pagamento do empréstimo aos credores, por mais agiotas que se revelem actualmente.

 

Do outro lado: Paula Santos, do PCP, também desconhecida para mim. Embora tenha dito uma ou outra verdade e embora revele saber o que está em jogo, o seu enquadramento político está desactualizado. Mas foi dela o punch certeiro a Teresa Anjinho e a Francisca Almeida desmontando a sua perspectiva caritativa e assistencialista. Aqui esteve perfeita: de facto, podemos dizer que esta é uma questão de classes, os grupos privilegiados (banca, grandes grupos económicos), contra o resto da população portuguesa. Revela conhecer de perto a vida diária dos cidadãos, as dificuldades sentidas nos hospitais, nas escolas, os cortes nos subsídios de desemprego, as dificuldades das famílias, e que seria essencial valorizar salários e pensões para dinamizar o nosso mercado interno, assim como as pequenas e médias empresas, etc.

 

E finalmente Marisa Matias, eurodeputada pelo BE, a única com quem consegui sentir uma afinidade cultural, a única que se revela empenhada num propósito maior do que o seu ego, e isso percebe-se desde logo pela informação de que dispõe, pelo entusiasmo genuíno, pelos argumentos fiáveis e baseados no essencial. Revelou estar bem informada sobre o que está a acontecer na Europa e no país e saber exactamente o que está em jogo.  Revelou aqui verdadeira empatia com os cidadãos, percebemos que não é retórica nem simples propaganda. É uma mulher de acção. Já a conhecia de uma reportagem sobre a sua intervenção no parlamento europeu, em que ficamos inspiradas sobre o que uma mulher pode fazer para exigir uma informação correcta, a defesa dos cidadãos europeus negligenciados, a divulgação de autênticas situações de crise humanitária. Uma mulher feita, que pensa pela sua própria cabeça, que tem os neurónios a funcionar, a empatia a funcionar, a capacidade de agir de forma inteligente e consequente. Só uma mulher autónoma, que sabe observar e intervir, pode inspirar-nos, mulheres, a observar e participar. E qual foi a informação crucial que esta eurodeputada nos trouxe? A seguinte:

Passou em votação no parlamento europeu um Relatório de actividades do BCE com um parágrafo com uma recomendação para reverter para os países intervencionados as suas mais-valias com a dívida desses países: 3 mil M€/ano. Dá para acreditar? (Já Francisco Louçã, aliás, o tinha revelado no dia anterior no mesmo programa da tvi 24, ao apresentar o livro Isto é um assalto, que só com a dívida portuguesa o lucro do BCE corresponde a 1,5 mil M€/ano).

E sabem quem votou contra? Precisamente: os eurodeputados do PSD e do CDS.

Está tudo dito.

 

 

Quanto à análise que aqui deixo sobre as mulheres: a questão aqui não é o partido x ou y, a questão é:

Que valores estão as mulheres na política activa a defender?

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:20








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